Ferimento transfixante em criança- relato de caso clínico
ResuMo
Ferimentos penetrantes em região de cabeça e pescoço podem ter morbidade e mortalidade significativos.
avaliação rápida e adequadas condições de tratamento iniciais, especialmente no que se refere à
estabilidade das vias aéreas e controle vascular, são fundamentais no correto manejo dessas lesões. O
presente artigo se constitui em de um relato de caso em criança após acidente transfixante em pescoço e
face, buscando trazer uma revisão de literatura sobre o assunto e as diretrizes atuais de tratamento para
esse tipo de lesão.
Descritores: Ferimento penetrante; Criança; acidentes domésticos.
aBstRact
Penetrating injuries to the neck and head can have significant morbidity and mortality. Rapid assessment
and prompt management of life threatening conditions especially airway and vascular control is essential
in early management. The following article it is a case report of a child after accident transfixing neck
and face, seeking to bring a literature review on the subject and the current guidelines for treating this
type of injury.
Descriptors: penetrating injury; child; domestic accidents.
ferimento transfixante em criança- relato de caso clínico
Transfixing injury in a child- a case report
V13N2
intRodução
a palavra trauma, do ponto de vista semântico,
vem do grego, cujo significado é ferida. Pode ser
uma lesão física, causada por ações externas lesivas
ou violentas ou pela introdução de substância
tóxica no organismo, podendo também ser um
dano psicológico ou emocional. Independente de
sua melhor definição, o fato é que o trauma é um
agravo, que pode gerar várias doenças e representa
um problema de saúde pública de grande magnitude
e transcendência no Brasil. Tem provocado
forte impacto na morbidade e na mortalidade
da população, com profundas repercussões nas
estruturas sociais, econômicas e políticas de nossa
sociedade.
entre as causas externas de trauma, incluemse
os acidentes e a violência, que configuram um
conjunto de agravos à saúde. Outras causas de
morbimortalidade, dentre elas, queimaduras, quedas,
afogamentos, envenenamentos, intoxicações.
No Brasil, em 2010, os óbitos por outras causas
externas, excluindo os acidentes de transporte ter-
Rev. Cir. Traumatol. Buco-Maxilo-Fac., Camaragibe v.13, n.2, p. 57-62 , abr./jun. 2013 ISSN 1679-5458 (versão impressa) ISSN 1808-5210 (versão online)
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Vieira
restre, responderam por 17,9% do total de óbitos
(13,43 óbitos/100 mil habitantes) e as quedas por
7,3% (5,46 óbitos /100 mil habitantes).
Os traumatismos, sob todos os aspectos, apresentam
grande importância na sociedade atual,
estando entre as principais causas de morbi-mortalidade.
Dentre as inúmeras lesões ocorridas em
centros de traumas urbanos, o traumatismo facial
é um dos mais prevalentes1.
Lesões penetrantes no pescoço e na face por
projétil (arma de fogo) ou não projétil (facas e outros
instrumentos afiados) representam uma fonte significante
de admissões agudas de civis nas unidades de
trauma no Reino Unido, e essa tendência se reflete
em toda a Europa2. Crianças e idosos parecem
representar um grupo de risco para tais lesões3.
Na infância, as causas de violência e a sua prevenção
vêm sendo objeto de inúmeros trabalhos nos
últimos anos por representarem, atualmente, uma
importante causa de morbi-mortalidade infantil.
Vários trabalhos nacionais e internacionais
apontam os acidentes com corpos estranhos como
importante causa de morbidade e mortalidade entre
as crianças.
À medida que os índices de morbi-mortalidade
em crianças por causas externas vieram se destacando
ao longo das décadas, a necessidade de
políticas e estratégias para minimizar esse problema
de saúde pública mobilizou sociedades e organizações.
Fisiologicamente as crianças respondem a uma
lesão muito diferente dos adultos, dependendo da
sua idade e maturação e da gravidade da lesão5.
Coletar corretamente a história do acidente,
solicitar exames de imagem para investigação, exploração
cirúrgica satisfatória e controle constante
de infecção são passos muito importantes para se
obterem resultados positivos na remoção de corpos
estranhos na face6..
Relato de caso
Criança T. L. S., 10 anos de idade, do sexo
feminino, vítima de queda acidental enquanto brincava
em sua residência, próxima a uma área que
estava em reforma. Ao brincar sobre os escombros,
desequilibrou-se e caiu sobre hastes de ferros de
construção que estavam com suas extremidades
desprotegidas. O socorro foi aguardado pelo SAMU
que providenciou o corte com serras do corpo
estranho, sem removê-lo da face da criança, visto
que o este encontrava-se travado em posição, havendo
o risco eminente de lesão de estruturas vitais
e sangramento durante sua remoção. A paciente
foi, então, encaminhada ao centro de referência
em trauma de sua região, o hospital de urgência e
emergência de trauma no município de Campina
Grande. Após o atendimento inicial ter sido completado,
ela realizou uma tomografia computadorizada
de face para afastar qualquer suspeita de fraturas
e avaliar a extensão do dano. O procedimento
cirúrgico foi realizado sob anestesia geral, para
remoção do fragmento de ferro. Após exploração
cirúrgica pelas equipes de cirurgia e traumatologia
buco-maxilo-facial (CTBMF) e cirurgia vascular,
verificou-se que nenhuma estrutura importante foi
danificada e posteriormente foi realizado sutura.
Foram administradas medicações para controle de
infecção (cefalotina) e dor assim como profilaxia
antitetânica. A paciente recuperou-se de forma satisfatória,
recebendo alta no quarto dia de internação,
quando se percebeu um déficit motor nas regiões
inervadas pelo nervo facial, embora não tenha sido
notado esse dano durante o exame direto na ferida
cirúrgica, não significando, entretanto, que ele não
tenha ocorrido, podendo ser atribuído esse déficit
ao próprio edema pós-operatório.
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